quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Missão Cumprida

     Missão Cumprida


     Lá pelos dias dos anos 50, uma cidadezinha do interior do país vivia do cultivo da cana-de-açúcar e de algumas propriedades agropecuárias. Era uma localidade bucólica, pacata, cheirando a orvalho e terra gentil. Todos ali eram amigos, de vida simples, viviam conformados com sua felicidade cotidiana e assim dividiam seu tempo entre o trabalho, quermesses religiosas e casamentos dos filhos das famílias locais (que sempre eram motivo de animadas festas). Além de sempre aproveitarem uma folga para se reunirem nas cachoeiras belíssimas do lugar, fazendo delas seu lugar de lazer (aquelas pessoas mereciam, pois todas eram por tradição honestas e trabalhadoras).

     Pois bem, nessa localidade de paz as horas eram longas, onde até o céu límpido e azul, o sol de ouro, forte e imponente, as chuvaradas com seus gritos valentes dos trovões e suas agitadas ventanias, as noites estreladas e calmas e até mesmo as noites escuras e profundas conviviam em perfeita paz e harmonia. Um dia porém viu com imensa tristeza, a ameaça do mal turvar os olhos e as almas daquela gente. Aquele lugar nunca tivera registro de ocorrência grave, apenas as desavenças entre amigos nas bebedeiras de final de semana (que nem chegavam a registro e já estavam resolvidas). Porém certa vez o delegado e seu batalhão de soldados (eram dois) apavorados tomaram conhecimento de que um meliante, vindo Deus sabe lá de onde, estava espalhando terror e tristeza entre os habitantes. Havia o tal desconhecido atacado uma casinha humilde, agredido violentamente um casal de velhinhos que lá morava, roubado pertences e sumido misteriosamente. Para o local do crime partiu o delegado e seu batalhão por uma estrada de chão, iam rápido, o delegado em sua bicicleta e os dois do batalhão a pé tentando acompanhar o seu comandante.

     Após horas de caminhada chegaram ao local, exaustos e dando graças a Deus por não terem dado de cara com o tal monstro criminoso pelo caminho, entraram na casa e depararam com uma cena que marcaria para sempre suas vidas, numa salinha (que era sala, quarto e cozinha) estava o velhinho de joelhos ao lado de uma cama velando solitariamente o corpo de sua eterna companheira, que não resistiu aos ferimentos causados pelo ataque violento do tal ladrão e morreu. Num outro canto da sala estava um cachorrinho sarnento que não parava de chorar pela morte de sua amiga.

     Sem poder dizer uma só palavra, impotentes diante da tragédia, apenas rezaram pela alma daquela velhinha (que mesmo sem vida continuava a ser um amor), depois, ajudaram a sepultar o corpo num pedacinho de chão, ali mesmo (tal cidadezinha tinha este costume, pois nem cemitério tinha), aquele momento de profunda dor e tristeza foi subitamente quebrado pelo urro terrível de um raio que rasgou o céu de nuvens pesadas e negras que resolveu chorar sobre a cidade um lamento nunca visto, parecia até que a Mãe Natureza queria lavar o lugar, livrar sua cidadezinha daquele Mal que insistia em atormentar seus filhos amados (Talvez estivesse ela, em sua sabedoria, prevendo os dias de tormenta que se seguiriam). No casebre do velhinho, aguardaram por horas a tempestade acalmar, partiram dali no final do dia seguinte, sob um vento gelado, por uma estrada lamacenta que margeava um rio agora nervoso e inconformado que parecia querer levar embora as marcas dos últimos acontecimentos. Com os espíritos em luto e os corpos exaustos, lá iam nossos amigos em uma caminhada que parecia não ter fim, buscando a cidade, agora estranhamente sob um véu de nuvens cinzentas e tristes.

     Deixando o velhinho em casa de amigos, voltaram os policiais à delegacia, onde os comentários já eram fortes, o tal monstro tinha aprontado novamente, em outro ponto da cidade. Num trecho deserto o tal sujeito atacou um tropeiro, o esfaqueou, roubou suas mercadorias e matou a golpes de facão os três animais da tropa. Indignado o delegado resolveu conversar com o tropeiro ferido (que só sobreviveu porque se fingiu de morto) e ficou sabendo que o tal meliante era um rapaz alto, muito forte e dono de uma frieza de dar medo só de ver.

     A população, ferida, indignada e revoltada se juntou ao delegado para a caça ao monstro (era como passaram a chamar o criminoso). Porém nada encontraram, mais uma morte ocorreu, uma jovem mãe foi atacada e morta em sua casa juntamente com seu filhinho de cinco meses, enquanto seu marido cuidava da lida da roça.

     O desespero da população e a revolta daqueles policiais que se empenhavam ao máximo mas não conseguiam prender o tal sujeito iam aumentando com o passar dos dias. Cada dia mais aquele lugar (mesmo que fosse lindo) ia se turvando, seguiam-se dias de pavor e insegurança, pois o tal monstro não cessava seus ataques, sempre agindo em pontos diferentes da cidade. Por causa destas atitudes o apelidaram de “Preá” (um roedor dos campos, do tamanho de uma ratazana, que tem grande facilidade de ir de um local a outro rapidamente).

     De repente alguém grita na frente da delegacia:

     -O “Preá” foi visto aqui perto tomando banho no riacho!!!

     Pronto! Logo o delegado e seu valente batalhão (entre dois policiais e os populares enfurecidos agora eram mais de cinquenta) chegaram de mansinho e cercaram o riacho. Lá estava o tal sujeito, tranquilo a nadar com a frieza com que fora descrito. Quando viu que estava cercado nada fez, recebeu voz de prisão e apenas esboçou um sorriso satânico e gélido (a mais terrível expressão do mal que aquelas pessoas já haviam visto). O delegado a contra gosto teve ainda o trabalho de impedir que o “Preá” fosse ali mesmo julgado e morto (era o que merecia), mas o homem da Lei esclareceu os amigos, moradores dignos, e pessoas de bem a respeito dos procedimentos legais a serem seguidos. Amarrado com fortes cordas, algemado nos pés e nas mãos foi o “Preá” levado para a delegacia e colocado numa segura cela.

     No meio da madrugada, um dos soldados de plantão resolveu dar uma conferida na cela, o que viu o deixou aterrorizado: no centro da cela estavam apenas as cordas e as algemas, mais nada. Uma sensação horrível de presença do mal tomou conta daquele lugar e o soldado quase que em desespero relatou o fato ao delegado e à população.

     Começaram a achar que o tal “Preá” era muito astuto, outros começaram a dizer que ele não era humano, o pânico não parava de aumentar, os ataques continuavam cada vez mais violentos, a polícia não conseguia reforços oficiais, o Padre e a Igreja (Tão presentes e atuantes nas festas) agora se omitiam e se acovardavam, dizendo apenas em negligentes e hipócritas sermões que tudo é desígnio de Deus (O que já começava a abalar a fé até dos seguidores mais fervorosos). As pessoas tentavam ajudar em vão. Com tristeza esse amigo e dedicado Delegado, percebeu o abandono Oficial em que ele, a população e seu valente Batalhão se encontravam, pois seus princípios Legais (dos quais sempre se orgulhou) já não estavam ajudando a proteger seu Povo. Sentindo-se incapaz, na solidão de seu gabinete na Delegacia, pela primeira vez em sua vida Oficial, chorou (um choro trágico, de um respeitável Homem). E no meio desta tormenta que atingiu a paz e segurança deste lugar, a vida tinha que continuar, os adultos cumprindo suas tarefas cotidianas, as crianças (para pavor de suas famílias) tinham que continuar e enfrentar sozinhas quilômetros na ida e na vinda entre a escola e suas casas. As notícias sobre as atrocidades não paravam e a vida também não.

     Por conselho da polícia, das famílias e dos amigos, os alunos passaram a andar em grupos, mas os colegas iam ficando em suas casas pelo meio do caminho, e o último deles ficava sozinho.

     Em sua caminhada, Pedrinho (Apenas acompanhado por seus sonhos, seu vira-lata Boliche e pela sua inseparável foice muito bem afiada) voltava para casa assoviando uma moda sertaneja (vale dizer que Pedrinho mesmo com apenas seus nove anos de vida, era um verdadeiro cidadãozinho, alegre, amigo de todos, responsável e valente) pois bem, naquela estrada deserta no meio do nada, lá ia ele, com seus apressados passos. Já eram quase seis horas da tarde quando num trecho da estrada, numa curva medonhamente deserta, aconteceu... surgiu na frente do pequenino Pedrinho, o Preá, aterrador, enorme... frio, monstruoso e ameaçador. Um golpe rápido, inesperado e preciso corta o ar e separa da cabeça o corpo que cai violentamente no chão, a cabeça, com a firmeza do golpe rola pela estrada empoeirada (agora já é uma cabeça sem aquela expressão do mal, apenas a cara de um imbecil assustado e morto, o Preá).

     Seguiu então rumo ao seu lar, assoviando uma marcha fúnebre, orgulhoso de sua foice afiada (Presente de seu amado Pai) com a certeza de que cumpriu mais uma missão e embora já passasse das seis da tarde, o céu de flamboyant, formava agora um colorido emocionante e alegre com a Luz dourada do Sol iluminando Pedrinho e toda a cidadezinha. E lá bem adiante, a Mata e o Rio se uniram formando um belo sorriso de colorido Arco Íris sobre o lugar amado. Enfim, a tal cidadezinha do interior, satisfeita, voltou a viver em paz e harmonia, como nunca deveria ter deixado de viver.


     Autor: Paulo Renato Lettiere Corrêa (Paulo Lettiere)

Condenados por maus-tratos (Com Agravante de Assassinato)

     Condenados por maus-tratos (Com Agravante de Assassinato)


     Nascida a muitos e muitos anos... Nascida bela e sábia, desejada por todo Universo, invejada ou admirada por todos, respeitada por poucos, amante dos amantes, irmã, amiga e mãe zelosa... Filha de Crenças e de Ciências que discutem o tempo todo sobre quem seria o dono Dela que a milênios assiste e resiste a tudo soberana, indomável e amorosa, gentil e compreensiva permitindo que as mais variadas formas de vida se juntem à Ela numa composição de genial Amor.

     Sim, o Amor, este sentimento único, simples e tão raro, é o sentimento que a milhões e milhões de anos, de toda maneira ensina a todos esta Mãe, ensina a seus filhos e visitantes. Ela insiste, não desiste de afirmar que a forma mais eficiente de se retribuir um Amor é com o Amor. Mãe simpática e protetora que a todos acolhe com carinho e quase consegue educar todos seus filhos, os pequeninos, os grandões, os chamados de furiosos, os criticados por sua mansidão, alguns até acusados de serem desprovidos de inteligência e vontade própria a entender de forma plena o significado das palavras Amor e Respeito.

     Viveriam por muito e muito tempo ainda, assim, em harmonia, ajudando uns aos outros, num cenário de beleza indiscutível, seria apenas vida gerando vida, sob um controle justo e natural. Esta Mãe feliz estaria sempre atenta não deixando nada faltar para a alegria de seus convidados e filhos queridos.

     Porém, ontem, surgiu ninguém sabe explicar vinda de onde, sem ser convidada, nem filha Dela, uma forma de vida cruel e egoísta, sem Respeito e sem Amor, provida de um nível de intelectualidade alto e a serviço do Mal. Formada por seres que são dissimulados e se dizem dominadores (pobres coitados, estas criaturas ainda não entenderam que não são nada).

     Mas, felizmente, alguns destes seres que aqui vieram, por princípios valorizados, logo perceberam o Amor que vinha desta Mãe, que apesar de desrespeitada e agredida, insiste em educar a todos. Alguns então, de um modo surpreendente, começaram a tratá-la bem e admirá-la, no entanto estes livres e inteligentes de fato, não demorando muito tempo logo conquistaram o ódio daqueles muitos e inferiores da sua espécie e vem sendo perseguidos e discriminados, sofrendo agressões de todas as maneiras, mas não desistem de proteger a sua Mãe amiga.

     Formaram grupos que tentam ensinar a amar, respeitar, são eles os Gênios da Ciências do Bem, das Artes, dos Esportes, etc..., que tentam com imenso e todo esforço alertar a todos os outros de que somos apenas passageiros de uma grande viagem, que estamos aqui neste Berço para um aprendizado, um Aprendizado de Amor e Respeito Mútuo, que todos aqueles que não conseguirem entender, praticar e ensinar isto, serão banidos deste lugar de uma forma abreviada e muitas vezes dolorosa e até mesmo trágica... Até mesmo a paciência de uma Mãe extremamente carinhosa tem limite.

     Infelizmente, a um longo tempo parece que estas criaturas racionais e malignas vem de forma sistemática desrespeitando e destruindo a todos e a tudo. O que estamos vivendo é a mais pura manifestação do Mal (seja em paraísos de avançada tecnologia ou em tranquilas montanhas verdejantes)... Lá estão elas, parecem vermes em sua voraz sede de destruição... Criaturas dissimuladas, que tem sempre uma desculpa cretina... Destroem por se acharem poderosas, ou destroem por serem miseráveis. A verdade é que avançam em suas atitudes.

     A má vontade, os inescrupulosos, os nojentos, os imbecis e ignorantes formam a parcela dos seres desta Raça de Humanos que se imagina dona do Universo, da Verdade e de sua Vida. Seres que acham que podem usar e abusar de tudo e de todos, que podem maltratar e fazer mal uso das dádivas que lhes foram ofertadas por presente de uma Mãe benevolente, que acreditam que podem promover a destruição sem fim e que quando não houver mais nada para destruir aqui, conseguirão fugir covardemente se aventurando em longas jornadas para tentar encontrar e invadir casas alheias.

     São loucos imundos que detém a Tecnologia Avançada mas não contém na essência de seu Ser, a Dignidade. Miseráveis são, contaminam a seus seguidores com um imperativismo do verbo Poder... Poder mandar, poder fazer, poder desfazer, poder matar, e, a mais hipócrita e cruel forma de poder, poder Mentir. Sim esta última é a que vem sendo mais usada a um bom tempo, e é a que mais destrói. Sob o manto negro da Mentira agem as Autoridades, sob o manto negro da Mentira agem as crenças e religiões, sob o manto negro da Mentira agem os interesses das grandes fortunas e sob o manto negro da Mentira agem os miseráveis de Corpo e Alma, que são aqueles que estão sempre seguindo as determinações de seus satânicos senhores, são também aqueles que mesmo vendo que suas atitudes maldosas destroem a si, destroem suas famílias e muitas vezes destroem seus inocentes (que teriam a obrigação de proteger), não aprendem nunca, estão sempre tentando transferir suas responsabilidades para os outros, numa atitude bem leviana (como já é de se esperar destes mentirosos covardes).

     Seres da maldade, debochados riem quando se fala no sofrimento e agonia da Mãe Natureza. Tripudiam, criando datas prováveis para esta Mãe morrer... Ela, que apenas sonha em ver seus amigos e filhos felizes. Fazem comentários maldosos de como será o tão questionado Fim do Mundo. Pois bem, em total despeito eles maculam e ferem, exploram e exterminam vidas e existências, destroem (mentindo que constroem), tudo modificam, afinal eles são espertos e inteligentes.

     Muito bem, a algum tempo estamos tendo sinais evidentes da agonia de nossa Mãe, mas tenham uma certeza, maldosos seres racionais, vocês colhem o fruto... Que são os poderosos vulcões que berram em chamas, aniquilando cidades, os mares revoltados que matam lugares e pessoas, os terremotos que rasgam e tragam metrópoles inteiras, os vendavais uivantes que com tormentoso sopro da morte varrem o que não presta da face da Terra, as chuvas que choram em colossais trombas d'água causando destruição e morte em grandes enchentes e deslizamentos... Ou seja, colhem exatamente o que merecem colher... Quem mandou vocês mudarem o que nunca deveriam mudar?... Construírem onde nunca deveriam ter construído?... Destruírem o que nunca deveriam ter destruído, emporcalhando tudo onde antes só havia limpeza?

     Para os Espíritos de Bem, levados ou que possam ser levados por estes frutos (impossível de tornar tais consequências seletivas), uma certeza... Foram bons e serão conduzidos para um lugar melhor (protegidos da indesejável presença de certos humanos de Mentira).

     Temam vocês, imbecis covardes. Gemam suas dores diante das grandes calamidades e tragédias... Tenham certeza de seus destinos dolorosos. Não precisarão mais de suas hipocrisias para clamarem por Justiça, vocês certamente serão julgados por maus-tratos e assassinato de uma Mãe Amorosa. Sua sentença (Culpados sem direito a recurso), sua condenação (O eterno sofrimento). Faça-se cumprir. Publica-se no Diário Universal.

     Pensavam que iriam sair impunes, os idiotas...?


     Autor: Paulo Renato Lettiere Corrêa (Paulo Lettiere)

A Viagem dos Sonhos

     A Viagem dos Sonhos


     Como eu costumo fazer sempre durante as minhas férias de meio de ano, decidi viajar pelo interior do país. No ano passado escolhi um estado da região sudeste conhecido por sua bela natureza, sua gente acolhedora e sua culinária maravilhosa. Pronto! Fiz a minha mala de viagem e animado parti. O dia estava lindo, convidativo mesmo para viajar. Não demorou muito e cheguei ao terminal rodoviário. Desembarquei meio que sem saber qual destino escolheria... Vagando pelos guichês, olhando nomes das cidades, vendo as pessoas e até mesmo os ônibus (na esperança que isto me ajudasse a tomar uma decisão), de súbito me deparei com uma dessas conduções que me chamou a atenção. Era um ônibus pequeno, antigo, parecia um sobrevivente da segunda guerra. Mas ali estava ele, presente, em aceitável conservação, orgulhoso e valente. Entre tantos outros maiores, mais modernos e arrogantes ali estava ele, empoeirado sim, mas, via conservada sua pintura. Era todo amarelo, com o nome da cidade de destino escrito em uma plaquinha  acima do para-brisa (Sereno, A Cidade Do Sereno).

     Decidi! É pra lá que eu vou! Simples que era, as passagens eram vendidas pelo próprio motorista antes de entrar na condução. Era ele um sujeito rústico, fortinho e meio atarracado, mas que se esforçava para ser gentil. As pessoas compravam seus bilhetes e iam se acomodando da melhor forma na condução. Enfim chegou minha vez. Perguntei ao motorista qual seria a duração da viagem e ele me respondeu:

     - Se tudo correr bem, se o possante aí não bufar... umas três horas.

     Pensei comigo mesmo: "Vamos nessa!"

     Entrei. Quase todos os lugares já estavam ocupados. Consegui encontrar uma poltrona vaga ao lado de uma jovem, pedi licença e me sentei. Ela me olhou e perguntou se eu queria sentar do lado da janela. Eu respondi que não era necessário e agradeci, então ela disse:

     - Eu gosto de viajar perto da janela, pra se eu passar mal...

     Sinalizei que entendi com um incrível sorriso amarelo. Minha atenção se voltou para porta de entrada do ônibus, lá acontecia uma discussão entre o motorista e alguns passageiros que queriam embarcar na condução já sem lugares vagos. O tal condutor resolveu acabar com tal discussão com uma justificativa que me gelou até os ossos... Falou ele:

     - Em minha condução, ninguém viaja em pé. Assim, no caso de uma capotagem ou de uma batida forte, ninguém quebra a cara ou morre.

     Ele entrou, assumiu irritado o comando do seu possante e partimos enfim sob o som confortante dos sinos de uma igrejinha  próxima que avisava as doze horas. Olhei à minha volta e percebi que o tal ônibus não tinha porta-malas, toda e qualquer bagagem ia ali mesmo junto com seus donos, disputando os espaços. Voltei para minha vizinha de poltrona e vendo que ela era uma moradora  da localidade perguntei se aquele ônibus era sempre assim, tão apertado. Para meu espanto ela respondeu:

     - Sempre que eu pego barriga fica assim, cheia de gente.

     Sua resposta me atingiu como um direto de um pugilista no estômago. Resolvi manter minha boca fechada o maior tempo possível durante a viagem. Felizmente, o motorista agora parecia mais calmo e concentrado, afinal, estávamos em uma grande rodovia e o possante roncava firme e determinado.

     Já havíamos percorrido bons quilômetros da rodovia quando reduzindo a velocidade entramos numa estrada secundária. Era uma estrada de chão, toda esburacada e com uma poeira vermelha de sufocar. Para piorar a coisa, estava um calor insuportável. O ônibus se sacudia todo fazendo uma barulheira terrível. Um dos passageiros reclamou, dizendo:

     - Que coisa, esta estrada não melhora, se faz sol fica assim pueril, se chove fica um horror de lamentosa.

     E desabafou:

     - Também... Quem manda nós ser burro e acreditar em promessa de políticos neste país.

     A viagem continuava. A estrada serpenteava por meio de grandes pastagens estorricadas pela estiagem que castigava o lugar. Capinzais cinzas e gado esquelético, urubus ansiosos, um céu azul de doer os olhos e rios de pedra (nunca de água) era o cenário desolador que se repetia por quilômetros e quilômetros  interrompido apenas por poucos casebres brancos com janelas e portas pintadas de azul, como de insistissem em afirmar: "Aqui ainda tem ou já teve vida".

     De repente me dei conta que já tinha algum tempo que minha vizinha ao lado vinha quieta, olhando fixamente pela janela e comendo de forma compulsiva uns biscoitos de polvilho de cor amarelo forte que estavam num saquinho de celofane onde se lia no rótulo: Biscoito do Sol. Pareciam bem secos e salgados. Para se defender dos biscoitos ela bebia sofregamente a água pra lá de quente de uma garrafinha plástica que levava no rótulo um criativo nome: Águas das Bicas. Ela percebeu que eu olhava para a garrafa, virou-se para mim e com uma voz insegura e desafinada, trêmula mesmo (não sei se por causa dos biscoitos, do saculejar do ônibus ou se por medo de que eu aceitasse) agitou o biscoito e a garrafa em minha direção e perguntou:

     - Queeeriiiiaaaaa?

     Assustado, agradeci mas não aceitei (não quis me arriscar). Já estávamos no meio da tarde, agora o cenário, o clima e estrada começavam a melhorar. Havia mais vida em tudo, já se sentia sinais de umidade no ar, os sítios já eram alegres, os rios cantarolantes, as vaquinhas leiteiras das propriedades eram gordinhas e espertas. Eu, que estava com o corpo todo estropiado pelos buracos da estrada, agora começava a relaxar e sentir uma sonolência com aquela brisa fresquinha. Já havia passado algum tempo nesta paz, quando, quase num salto, a moça ao meu lado levanta-se gritando agitada:

     - Condutor, por favor... Pare a barriga aí pertim da curva do Seguraí, que eu vou descer.

     Só então que eu fui entender a tal barriga que ela falou... Se tratava do apelido que deram ao ônibus, por causa de suas formas redondas e por estar sempre cheio de gente. Nossa amiga desceu do ônibus e enquanto a nossa condução partia, levantando uma nuvem de poeira, ela ficou ali, à beira da estrada, solitária, acenando gentilmente para os que seguiam viagem. Ela era um tanto estabanada, mas, simpática. Vi quando ela se dirigiu a uma trilha que deveria levar à sua moradia. Desejei: "Seja feliz jovem amiga!"

     Esta cena me levou por bons minutos de forma saudosista à minha infância no interior: "Passageiro de meio de caminho, uma trilha no meio do Mundo, um coração simples e feliz, sonhos e realidades... Com certeza esta foi a base que me faz hoje um Espírito feliz e uma pessoa bem sucedida". Fui sem dó nem piedade arrancado de meus pensamentos saudosistas pela voz irritada do tal motorista, que gritava enquanto se retirava do seu lugar:

     - O possante bufou! Vai ter que beber água.

     Só então me dei conta de que havíamos parado à beira da estrada, perto de uma generosa moita de bambus. Resolvemos descer para esticar um pouco nossos corpos maltratados pela viagem. Apesar do clima já ter ficado bem mais agradável, dentro do ônibus ainda tinha um ar morno e saturado. Eu, esperto que sou, vi quando o condutor foi para algum lugar com umas latas na mão, fui atrás e descobri ele enchendo as latas com a água de uma farta biquinha de bambu. Me aproximei quando ele terminou de encher as latas para dar de beber ao seu bufante e sofregamente tomei umas boas goladas daquela água. Estava meio morna mas serviu para acalmar a sede. Agradecido, olhei para a tal farta biquinha de bambu, agora via que tinha uma plaquinha de madeirite pregada acima dela onde se lia: "Água Imprópria Para o Consumo Humano".

     O motorista, que havia ficado ao meu lado, parado, espantado com minha sede, quando viu meu desespero ao ler a placa, tentou me acalmar, dizendo:

     - Até eu quando estou morrendo de sede bebo desta água. Faz mal não... Às vezes aparecem umas feridinhas mal cheirosas na cara... Dura só umas duas semanas, depois somem.

     Mergulhado em silêncio, quando percebi, já estávamos novamente rodando na estrada naquela condução comandada por aquele indivíduo tão gentil. Alguns quilômetros adiante, o cenário era totalmente diferente do início desta viagem, tinha matas frescas e verdes e o sereno tomava conta do lugar e já fazia um frio repousante. Atravessamos uma enorme ponte de madeira sobre um encachoeirado e ruidoso rio de águas cristalinas. Após uma subidinha encravada em meio a um lindo vale, lá estava ela, parecendo acariciada pelas nuvens, a nossa bela, simples e acolhedora cidadezinha de Sereno. A boca da noite já tentava engolir o que restava deste dia, mas, de forma alguma entristecia o lugarejo. O ônibus orgulhoso descia agora por uma alameda tortuosa. A iluminação avermelhada dos postes da cidade ganhava um dourado alegre ao tocar a nuvem de sereno que predominava no lugar.

     Enfim, após rodarmos por umas ruas, chegamos a uma praça de forma irregular onde paramos à beira da calçada. Tinha uma mini cobertura de ponto de ônibus que eles chamavam de rodoviária. Desembarcamos. Estava ansioso para conhecer o lugar e apreensivo sobre onde conseguir uma pousada ou um hotel para me instalar. Pensei em pedir informação ao motorista, mas este já foi dizendo que não poderia me dar atenção, pois teria que correr para o mictório. Olhei em volta, uma praça simples e simpática, um coreto rústico e bem cuidado, ruelas em torno, uma igrejinha arrogante, uma padaria convidativa, apenas uma agência de Banco (felizmente eu tinha conta nele), umas dezenas de casas e uns poucos moradores que passavam apressados.

     Resolvi então ir à padaria para me informar de um bom lugar para ficar. Ao entrar vi que funcionava ali também um animado barzinho. De mansinho perguntei ao rapaz do balcão sobre um bom lugar para passar a noite. Ele fez uma cara maliciosa e piscando o olho direito (querendo demonstrar esperteza) me respondeu:

     - O melhor lugar para se passar noite nesta cidade é na rua aqui atrás... Na Casa das Moças.

     Saí do tal estabelecimento com a sensação de estar falando outro idioma. Foi quando passou na minha frente um indivíduo baixinho, apressado, enfiado numa farda policial azul com enormes botões dourados. Alcancei o sujeito e perguntei sobre hotéis, pousadas ou hospedarias, ele, sem parar sua correria, me respondeu em um carregado sotaque francês algo que eu entendi assim:

     - Eu estou com muita pressa... Vou fazer uma coisa que só eu posso fazer e vai ser um alívio quando eu fizer.

     E afastou-se rapidamente, me apontando a direção de uma rua, na qual tinha uma placa indicando "Pousada da Vó Nirma". Eu vi quando o tal policial se dirigiu para a rua atrás da padaria e pensei: "Elas vão fazer picadinho deste baixinho". Este sujeito me lembrou algum personagem da História... Só não conseguia definir com clareza, qual. Estava empenhado naquele momento, em encontrar logo um lugar para me instalar. Segui pela rua indicada, andei uns bons metros e encontrei um longo muro que ostentava uma bela grade de ferro que protegia um lindo e imenso jardim gramado, que tinha ao fundo um suntuoso casarão (tudo muito bem cuidado e com uma iluminação discreta mas muito eficiente). Me dirigi ao portão da entrada, era de ferro, artisticamente forjado, de desenho impressionante, forte e protetor. Ao alto e no centro deste, um brasão imponente e belo (daqueles que parecem ter o esplendor da família a qual pertence).

     Parado (Ou seria paralisado?) diante de tamanho bom gosto, tomei coragem para tocar a campainha. Veio me receber um casal formado por uma senhora (um amor de pessoa) e um jovem atlético e de educação refinada. Fomos em silêncio para o casarão. Adentramos a um enorme salão. Olhei com atenção o assoalho de tábua corrida, as paredes altas e brancas, assim como o teto, que mostrava um imenso e inamaginável lustre (que mais parecia uma cascata de belos cristais) descendo de seu teto. Existia também todo um mobiliário com belíssimas cortinas e ao centro deste rico ambiente um orgulhoso piano de cauda em mogno.

     Eu estava como que hipnotizado com tudo que via ali quando a bondosa senhora virou-se dizendo:

     - Vejo que você está precisando de um bom descanso. Depois de descansado lhe mostrarei todas as dependências.

     Sorrindo, pediu ao seu assistente que me levasse aos meus aposentos. Era uma suíte. O rapaz acomodou minha mala e se despediu gentilmente. Fiquei ali alguns instantes, imaginando aquela pousada, sua proprietária, seus funcionários... Subitamente, pensei sobre quanto seria uma diária num lugar assim, deveria ser carinha (na minha necessidade de encontrar abrigo, nem me lembrei de perguntar isto)... Bem deixa isto pra lá. Resolvi tomar um bom banho. Assim fiz. Já estava no conforto de meu pijama quando alguém bateu à porta. Atendi. Era o serviço de copa com uma deliciosa refeição. Não pude resistir. Após apreciar aquela nutritiva refeição, me recostei na cama e envolto num gostoso cobertor fiquei durante um bom tempo com a mente vazia, sem pensar em nada, apenas curtindo o momento. Então tentei buscar o sono, ele não veio, insisti, e embora estivesse um pouco cansado da viagem, não conseguia adormecer... Foi quando ouvi uma canção de ninar. Prestei atenção e percebi que vinha do piano lá na sala. Reconheci ser a canção de ninar composta e cantada apenas pelos meus familiares (Era uma declaração de afeto e carinho entre nós). Tentei levantar e não consegui, adormeci em profundo sono.

     Na manhã seguinte estava totalmente recuperado em minhas forças. Enquanto me encaminhava para o refeitório, pensava: "Vou esclarecer com aquela senhora quem estava a tocar piano na noite passada". Determinado seguia quando aparece à minha frente, ela, delicada, serena, dona de uma gentileza desconcertante... Me tomou pelo braço e me levou até uma das mesas. Me acomodou e sentou a meu lado dizendo enquanto sorria:

     - Que o Bem, a Paz e a Luz continuem sempre em seu Coração.

     Pediu-me licença e se retirou com a delicadeza de costume. Diante de tudo isto a minha determinação para perguntas caiu no silêncio, concentrei-me apenas naquele bem montado café da manhã (Estava simplesmente maravilhoso). Enquanto eu apreciava o café, pensava: "Quem era aquela senhora que me tratava como se me conhecesse a muito tempo?"

     Ela tratava os outros hóspedes com educação e carinho mas pra mim eu percebia que ela enviava uma energia ainda mais do Bem...

     Decidi então que após o café daria uns passeios pela cidade para me distrair... Conhecer melhor o lugar e aproveitaria também para investigar sobre aquela pousada e a sua misteriosa proprietária. Já estava saindo da mesa quando Vó Nirma se aproximou de mim sorrindo e disse:

     - A manhã está linda! Aproveite para dar uns passeios, conhecer melhor o lugar, as pessoas daqui, enfim, matar a curiosidade. Mas, se puder volte antes do almoço para ver nossa cozinha em ação. Sei que você é um chef de cozinha respeitado. Vais gostar de nos acompanhar.

     Espantado, confirmei que voltaria a tempo (Fiquei intrigado, como ela soube que eu era um chef... Eu nunca informava isto onde me hospedava, para não parecer prepotente). Caminhei um pouco pelo jardim e ao passar pelo portão, olhei para o tal brasão... Uma alegria incompreensível invadiu minha alma, me proporcionando uma clara certeza que aquela pousada e suas pessoas estavam ali a serviço do Bem.

     Caminhando em direção ao centro da cidadezinha (agora à luz da manhã) percebia que tudo ali era a mais perfeita visão dos lugarejos do interior. As ruas, as casas, as pessoas, a tal praça com seu coreto e sua igrejinha, um comércio que dividia os espaços. Era tudo simples mas bem cuidado. Tudo isto vivia em função das imensas fazendas que se avizinhavam do lugar. Chegando à praça, avistei um senhor sentado em um dos banquinhos. Estava ele observando os pombos em um gramado perto dele. Me aproximei, puxei uma conversa sobre o dia lindo que fazia... Ele concordou gentilmente... Sentei ao seu lado. Começamos uma conversa animada, sobre o dia, sobre as fazendas, enfim, eu queria mesmo era obter informações sobre a pousada onde estava instalado. Por isto, em um momento de nossa prosa, como quem não quer nada, perguntei sobre a pousada. Ele respondeu em tom sereno e desinteressado:

     - Haaammmm... a Pousada da Vó Nirma, um bom lugar.

     A seguir, pediu licença, se despediu e partiu cantarolando uma musiquinha desconhecida. Confesso que me senti ridículo na minha primeira tentativa de investigação. Saí meio que sem graça, caminhando pela praça repleta de mesinhas de azulejos decorados e cercadas de blocos de pedra que serviam de cadeiras. Havia um grupo de pessoas conversando. Pensei: "Vou me enturmar. Quem sabe se ali não consigo as informações que desejo?" Quando me aproximava do grupo, ouvi o que falavam, comentavam orgulhosos, que no anoitecer do dia anterior (Foi quando eu desembarquei na cidade), o baixinho mas valente policial Leon, agiu rápido e salvou um garotinho que ficou preso quando brincava em um estreito porão da casa em que morava... Tal casa fica ali, logo depois da Casa das Moças, na rua atrás da padaria. Comentavam ainda que se Leon não fosse baixotinho não seria possível salvar o menino.

     Envergonhado de meu julgamento sobre aquele baixinho apressado, me afastei. Resolvi voltar à pousada, afinal, tinha um trato com Vó Nirma. No meio do caminho de volta tinha um sujeito aparando a cerca viva de sua casa... Resolvi arriscar mais uma vez... Elogiei sua casa, ele sorriu e disse que não era dele, apenas estava tentanto arranjar uns trocados para almoçar. Pensei: "Comecei bem! Eu e as minhas mancadas!". Insisti e subitamente falei sobre a pousada. Comentei que era uma bela propriedade... Parou de podar por um instante, virou para mim calmamente, tirou o cigarro de palha da boca, deu uma carregada cusparada (que quase acertou meu pé) e concordou:

     - Hê Hê.

     Ele novamente colocou o cigarro no canto da boca, deu uma ajeitada no chapéu e com seu facão imenso voltou a se concentrar em seu trabalho encerrando a conversa. Eu saí de fininho, buscando chegar logo à pousada. Ao chegar, Vó Nirma estava sentada em uma confortável cadeira colocada na varanda. Levantou e veio ao meu encontro. Comentou que eu havia retornado bem a tempo de ver seus funcionários de cozinha em atividade. Mais uma vez eu pensei: "De repente é aqui mesmo o melhor lugar para minhas investigações".

     Chegamos à cozinha. Era um grande espaço, bem organizado e com um eficiente sistema de ventilação, exaustores e iluminação que deixavam o lugar em uma harmonia impecável. Todos ali eram de uma competência e educação irretocáveis, dando provas do amor pelo que criavam ali (Pratos simples ou sofisticados). Sempre visavam agradar a todos. Fiquei ali bons momentos, parado, observando tudo e todos, surpreso com a desenvoltura de Vó Nirma... Ela supervisionava e com carinho orientava os seus funcionários com suas doces palavras, seus elegantes gestos, segura e simpática como sempre. Em um determinado momento, ela veio em minha direção e disse:

     - Para você pedi que preparassem o que você mais gosta... Uma boa carne assada ao molho madeira com arroz branco e uma saladinha de folhas verdes.

     Ela voltou serena, a acompanhar seus funcionários. Eu fiquei ali, imóvel, com meus pensamentos e palavras silenciosas... Tentando entender o que significava tudo isto. Perguntava a mim mesmo como Vó Nirma sabia tantas coisas sobre mim... Por que me olhava e tratava como se já me conhecesse a muito tempo? E a mais angustiante de todas as minhas dúvidas: Por que eu não ousava indagar, questionar mesmo, esta incrível e respeitável senhora sobre ela, sobre nós? Enfim, perto dela era tudo tão natural, tão harmonioso, que minhas perguntas calavam.

     Assim, ali naquele cantinho daquela bela cozinha, decidi, por tudo que haviam me oferecido, por tudo que havia vivido naquele lugarejo e naquela pousada, e, principalmente, pela adorável Vó Nirma... A partir daquele momento jamais eu tentaria questionar e investigar nada sobre aquele lugar, sobre aquela pousada ou sobre a bondosa Vó Nirma. Apenas, agora, iria apreciar tudo e agradecer ao destino que me trouxe até aqui.

     Fui despertado de meus pensamentos e promessas pela doce voz de Vó Nirma que sorridente dizia:

     - Venha meu neto! Agora, sem dúvidas, você vai amar nosso almoço.

     Fomos para a sala refeitório e o almoço foi servido... De fato o meu estava impecável em tudo... Adorei! Fui até a recepção e comuniquei que partiria naquela tarde (Uma dolorosa decisão. Não queria correr o risco de quebrar minha promessa quanto as investigações). Voltando aos meus aposentos, resolvi arrumar minhas malas para a partida. Assim fiz. Olhei ao redor para certificar que não havia esquecido nada. Nada havia esquecido (Não queria esquecer, nem mesmo as lembranças deste lugar maravilhoso). Acompanhado por meus pensamentos, lembranças, saudade e malas, cheguei à recepção. Estava fechando as contas quando veio até nós Vó Nirma, como sempre sorridente, segura, dizendo:

     - Então vai partir... Espero que tenha gostado do tempo que passou conosco. Nós adoramos você!

     Falei o quanto gostei dos dois dias vividos com todos ali. O rapaz da recepção entregou-me um recibo das contas muito bem detalhado... Data de chegada, despesas, saída, etc... Vó Nirma fez questão de assinar tal recibo (Uma bela rúbrica, que me parecia familiar). Ela me tomou delicadamente pelo braço e nos retiramos dali. Seguimos vagarosamente através do farto jardim. Com elogios às flores disfarçamos a melancolia daquele momento da partida. Ao pé do portão paramos, olhando um para o outro com um carinho inexplicável. De repente ela estendeu sua mão direita me oferecendo uma folhinha dobrada de papel cor de rosa, me dizendo:

     - Tome, leve e leia com carinho. Tenho certeza que você vai gostar.

     Recebi o papelzinho, guardei no bolso de minha mala, agradeci por tudo ali, e, principalmente por ela existir. Ela deu-me um beijo no rosto (tenho certeza... nunca vou me esquecer do carinho intenso naquele beijo) que procurei retribuir. Buscando forças, parti com a certeza de que fazia o certo (Algo me garantia que sim). Já na rua arrisquei voltar o olhar em direção ao portão, ela continuava lá, parada, tranquila, com a clara expressão de "Vá em Paz... Foi muito bom te ver de novo".

     Apressado, segui pela ruazinha pavimentada com pedrinhas rústicas. Levava comigo uma mochila nas costas e em cada mão arrastava uma dessas malas com rodinhas que não pararam de saculejar nas calçadas irregulares dali. Enfim cruzei a praça local e cheguei ao ponto de ônibus, lá estavam o possante, seu motorista agitado (era aquele mesmo que me trouxe) e um arremedo de fila de passageiros e suas tralhas se empurrando. Entrei na fila e no clima de empurra-empurra. O gentil motorista, já foi mostrando serviço, dizendo:

     - Parem com esta balbúrdia! Senão eu não vendo passagem pra ninguém. Meu ônibus não é curral.

     Funcionou... Os ânimos se acalmaram. Logo eu estava dentro do ônibus e descobri uma poltrona vaga. "Que sorte a minha!" pensei. Desta vez iria perto da janela. Acomodei minhas malas do melhor jeito e não demorou a sentar ao meu lado o meu vizinho de viagem... Era um gordinho suado, que tinha em suas mãos uma latinha de cerveja e uma  sacolinha de papel com gordurosos torresmos. O sujeito, espalhado, mal cabia em sua poltrona e não tinha noção de espaço. Pensei com meus botões "Esta viagem promete". Olhei pela janela. Via que lá fora a fila era um amontoado de pessoas confusas que o pobre motorista já não conseguia organizar. De repente ouvimos um apito ensurdecedor... Era o  guarda Leon chegando. Veio promover a ordem, como ele próprio berrava entre um apito e outro. Os passageiros reclamavam que alguém havia furado a fila... O motorista alegava não ter visto nada... Leon como se estivesse possuído por um espírito estrategista tentava acalmar aquele povo dizendo que todos estavam certos, que todos tem direito à igualdade, à fraternidade e à liberdade... Mas que isto só se tornaria uma realidade depois que o mundo vivesse uma grande revolução que abalasse os alicerces dos poderosos. Ouvindo isto, como que por encanto, tudo por ali foi tranquilizando. As pessoas com suas passagens compradas, embarcaram, e as que não conseguiram comprar passagens, foram se dispersando. Foi quando como surgida do nada, uma mulher apareceu aos gritos, reclamando que muitos homens da vila iam vagabundar na cidade grande... Que ela precisava pegar barriga e que ninguém queria ajudar. Ela fazia um tal berreiro na calçada junto ao ônibus, que, meio inconsciente, comentei com meu vizinho de poltrona:

     - Meu Deus... Será que nenhum cavalheiro gentil vai oferecer o lugar para que esta desesperada senhora possa viajar?

     Ele, com negligência, me respondeu:

     - Logo se vê que o moço não é dessas bandas. Essa aí não quer viajar não. Essa é Sofia, filha de Dona Conceição. Ela é descontrolada dos nervos e agora cismou que quer embuchar, pegar barriga... Engravidar... Entendeu?

     Fiz cara de que entendi e pensei comigo mesmo: "Mais uma de minhas mancadas... Vou fechar a boca que é melhor!". Enfim partimos. Rodamos por ruazinhas do lugar... As casas eram simples, de cores fortes e sem apego às regras da arquitetura urbana... Apenas seguiam a personalidade de seus moradores, que tinham o costume de ficarem nas janelas de suas casas acenando para as conduções desejando uma boa viagem, marcando em meu coração a saudade do lugar.

     Atravessamos agora pela ponte de madeira sobre o rio agitado e seguimos pela estrada tortuosa em meio à deliciosa mata da região. O sereno e o ar puro tornavam aquele momento de despedida mais calmo e agradável. O possante seguia firme e determinado. Alguns passageiros conversavam baixinho, outros dormiam, o gordinho ao meu lado seguia meio que em transe, olhando fixo para sua latinha de cerveja e conferia se ainda restava algum torresmo em sua sacolinha de papel já vazia.

     Saindo do sereno e do frescor da mata, entramos agora no tormento daquela estrada de chão toda esburacada. A poeira era vermelha e sufocante, os trancos e saculejos torturavam nossos esqueletos e foi aí que eu descobri a razão da sorte ter me reservado esta poltrona... Era bem em cima da roda traseira... O que me garantia trancos mais fortes e também havia o privilégio de aproveitar todo aquele cheirinho de lona de freio velha queimando. A cada freada brusca do possante eu reclamava baixinho:

     - Droga...

     Mas tentei me conformar pensando que quem está na chuva tem que se molhar (eu nem imaginava como iria me arrepender deste pensamento).

     Já estávamos na agonia desta estrada à boas horas. A paisagem se repetia sempre, poeira vermelha, grandes pastagens esturricadas pelo Sol implacável, gado na pele e osso, casebres e moradores em busca de se manterem vivos. Estava muito quente quando passamos por uma plaquinha de madeira à beira da estrada onde pude ler "Trevo de Cegonhas a cem metros". Imediatamente nossa condução reduziu a velocidade. Nos aproximamos do tal trevo de acesso. Na verdade era apenas uma encruzilhada com uma cobertura pequena e precária com um banquinho de madeira... Enfim, um ponto de ônibus no meio do nada. Nele estavam três pessoas. Eram duas jovens sentadas e um senhor em pé à beira da estrada. As jovens, ao verem o ônibus, começaram a gritar para o senhor à beira da estrada, em coro e com suas vozes fanhas e desesperadas:

     - É o nosso ônibus! Grita, pai... Grita!

     O senhor, meio que desorientado, todo agitado, começou a sinalizar e gritar. Porém, as duas, ao perceberem que não era o ônibus que desejavam, em coro, desesperadas e fanhas gritavam:

     - Não grita não, pai... Grita mais não... Não é ele não.

     Alguns passageiros comentaram o ocorrido dizendo:

     - Que trio estranho. Deve ser uma família de malucos. Ainda bem que não paramos.

     E a viagem seguia. Agora umas imensas e pesadas nuvens negras cobriam o céu. Alguém disse "Se o calor continuar, vamos beber água do céu". De fato, alguns quilômetros à frente começou uma chuva fininha que logo virou dilúvio. E o meu pensamento, aquele de estar na chuva, virou realidade... pois eu descobri também que a minha janela não tinha vidro para fechar... E aquela poeira vermelha acumulada em meu rosto virou uma lama fina a escorrer pelo meu peito com a chuva que insistia em me castigar.

     Ainda tinha aquele gordinho, suado e espaçoso que agora teimava em cochilar recostado em meu ombro... Estava babando, roncando e com um horrível bafo de cerveja. Dele eu conseguia me livrar por alguns momentos dando-lhe delicadas cotoveladas em seu flanco (pior que era insistente o tal glutão). Chovia muito e o calor não passava... Assim nossa viagem continuava. De súbito, uma cria de uma das passageiras resolveu enriquecer a trilha sonora da viagem com seu choro agudo, ensurdecedor, angustiante e infindável, o que provocou a ira de um dos passageiros, que gritou:

     - Dá a teta pra este bezerro parar de berrar.

     De nada adiantou. Olhei e vi aquela mulher carinhosa que apenas se limitava a chacoalhar nervosamente a criança como se fosse um boneco enguiçado. Veio-me um pensamento melancólico:

     - Meu Deus! Por que?

     Consultei o meu relógio tentando ver quanto tempo restava de viagem. Fiquei animado, faltava só pouco mais que uma hora, a chuva começava a diminuir e o clima já era bem mais agradável. Soprava uma brisa fresquinha e milagrosamente aquela choradeira cessou. Agora começamos a rodar na estrada asfaltada e o nosso gordinho resolveu ficar acordado... Enfim era um paraíso.

     Quando percebi, já estávamos circulando pelas ruas da cidade em busca de nossa rodoviária de destino e alguns passageiros mais afoitos já se preparavam para desembarcar. Finalmente entramos no terminal rodoviário. Todos desceram do ônibus. Eu, com minha bagagem, também desci. Fui até o motorista ao lado da condução para agradecer e me despedir. Ele olhou-me e foi logo dizendo com a calma habitual:

     - Agora não posso falar, seu moço... Tenho que correr pro mictório.

     Considerei aquilo uma sincera despedida. Cansado, com dores por todo corpo, agradeci por estar vivo. Fui em busca de um ponto de táxi, cheguei até um deles, e, antes mesmo que eu falasse qualquer coisa ele foi logo dizendo:

     - Não, aqui não. Eu não carrego feridos, pode me dar problemas com a polícia... Vai que o senhor morre no meu táxi... Aí é que a coisa fica feia.

     Sem entender direito o que o infeliz dizia, percebi que ele olhava horrorizado para meu peito. Olhei e vi surpreso uma enorme mancha vermelha que se formara com a chuva e a poeira em minha camisa branca. Entendi tudo... Comecei a rir e expliquei o que era aquela mancha. Ele, tranquilizado, eu envergonhado, ríamos um da cara do outro durante toda a viagem até a minha casa.

     Chegamos. Ali estava a minha casa, o meu adorável e aconchegante cantinho. Parei por uns instantes à entrada do portão e suspirei feliz (estava em casa, ufa...). Já passava da Hora da Ave Maria... O céu era matizado por detalhes dourados numa imensidão cinza severa, onde uma lua prateada, tímida, parecia querer ficar escondida. Entrei em casa, estava com o corpo castigado pela viagem e o espírito ainda excitado pelos últimos acontecimentos. Deixei as bagagens na sala mesmo. Estava ansioso por um relaxante e demorado banho... Aproveitei.

     Exagerados minutos depois, enfiei-me em meu pijaminha favorito (branco de bolinhas azuis). Fui até a cozinha e resolvi fazer um belo e sofisticado lanche. Demonstrando todo meu conhecimento de chef, preparei então um delicioso prato à base de pão de forma com alface, tomate (e o meu segredo, mortadela defumada). Fiz dois... Nossa! Que delícia... Dei à ele o nome de Sanduba Proibido. Para beber, um bom refrigerante de guaraná bem geladinho e com muitas bolhinhas gasosas. Perguntei à mim mesmo:

     - O que diriam as minhas duas filhas adoráveis se estivessem aqui, assistindo a este momento de criatividade de seu paizinho?

     Sorri saudoso, mas conformado, pois não ia demorar muito, logo elas estariam aqui de volta. Tinham ido passar uns dias na fazenda de uma amiga para assistir ao lançamento de mais um livro maravilhoso dela.

     Ali, na paz de minha cozinha, eu ia apreciando a minha criação e refletindo sobre a minha viagem... Foram praticamente dois dias. Nunca havia feito um passeio tão curto, mas, foi tão intenso, foram tantas coisas que vivi, tantos fatos, e agora aqui estava eu, a um passo de já partir para uma nova viagem. Só que agora iria em companhia de minhas filhas. Apesar do cansaço, eu adoro viajar para vários destinos durante minhas férias. É gratificante!

     Quando percebi já estava a algum tempo ali, pensativo na companhia das migalhas dos sandubas no prato e de um gole do refrigerante no copo. Decidi me preparar para um bom sono repousante e assim fiz. Algum tempo depois, acordei angustiado com uma dor aguda. Era uma terrível queimação no estômago com um gosto insuportável de guarda-chuva velho na boca (e olha que nunca experimentei comer um, rsrsrs), pensei:

     - Que coisa... Deve ter sido aquele copinho de água que bebi antes de dormir que me fez mal.

     Apressei-me em tomar um antiácido. Melhorei, mas, perdi o sono. Já passava do meio da madrugada quando resolvi reorganizar as malas. Foi quando então encontrei o recibo da Pousada da Vó Nirma e o tal papelzinho cor de rosa que ela havia me entregue com tanto carinho. Curioso, comecei a ler o que nele estava escrito. Vi que se tratava de uma receita. Surpreso, fui lendo com atenção, linha após linha. Era assim:                                                                          

Ingredientes:

500 gramas de Farinha de Trigo

50 gramas de Fermento

100 gramas de Margarina

2 ovos de galinha

100 gramas de açúcar

Essência de Baunilha a gosto

½ copo de água

Faça assim:

     Fazer uma esponja com 50 gramas da farinha de trigo, o fermento e um pouco da água. Deixe repousar por uns 15 minutinhos. Após este descanso adicione os demais ingredientes. Trabalhe esta mistura (com as mãos) até conseguir uma massa macia, lisa, bem homogênea. Deixe esta massa crescer durante uns dez minutos. Passado este tempo modele em bolinhas de umas 30 gramas cada. Coloque em uma assadeira levemente untada com margarina. Cubra com um pano e deixe dobrar de tamanho. Agora é só fritar em óleo não muito quente (para não queimar).

     Fica delicioso se cortá-los ao meio depois de fritos e rechear com geléia de fruta ou mesmo com um creme docinho de seu gosto.

     Ao terminar estava com que em transe, hipnotizado mesmo... Pois aquela receita que havia terminado de ler era a mais fiel receita de Sonho Doce da minha querida avó... De domínio único de nossa família. É mesmo a mais fantástica receita de sonho que eu, infelizmente, no meio de muitas mudanças de endereço por este mundo, havia perdido. Isto me entristecia. Agora ela está de volta para mim... Que alegria! Curioso que sou, pensei:

     - Como é possível? Por que só agora? Como ela sabia? Afinal... Quem é você Vó Nirma?

     Em meio a tantos questionamentos, eu me lembrei da promessa feita a mim mesmo, lá na pousada e estava disposto a cumpri-la. Tão feliz me encontrava, que resolvi que deste dia em diante iria compartilhar esta receita de família com todos os amigos interessados (será minha homenagem à Vó Nirma). A queimação no estômago havia sumido, um soninho preguiçoso me convidava, começava a cochilar. A campainha da porta tocou. Seu toque era suave, mas eficiente. Tocavam e uma voz desesperada gritava para que eu atendesse. Rápido, parti para ver o que acontecia. Não havia ninguém à porta. Percebi então que tal barulheira vinha lá do lado de meu quarto. Voltei e vi que era apenas meu celular me chamando. Havia me esquecido do novo toque que era presente de uma de minhas filhas. Atendi. Eram elas, para me dizer que estavam bem e que estaríamos juntos no final da tarde. Trocamos mais algumas boas palavras, combinamos a nossa futura viagem e nos despedimos.

     Animado com a próxima viagem (É sempre muito bom viajar com minhas filhas... São dignas e muito animadas. Formamos um trio muito esperto, imbatível na arte de viajar), resolvi de uma vez por todas encerrar minhas dúvidas e aceitar os fatos ocorridos em minha viagem solitária como um presente do destino.

     Decidi ir à Rodoviária comprar as nossas passagens. Consegui comprar nossas poltronas favoritas. Tudo corria muito bem até passar pelo ponto onde havia embarcado para ir para Sereno, a Cidade do Sereno. Arrisquei uma olhada e vi apenas um enorme, moderno e luxuoso ônibus, com um vistoso letreiro eletrônico onde se lia Sereno. Curioso, me aproximei, vi seu motorista (um senhor já de certa idade, elegante e com um uniforme impecável) ao lado da porta da bela e imponente condução, fui até ele e perguntei:

     - Como está a adorável cidadezinha de Sereno, amigo?

     Ele me olhou como se estivesse vendo um alienígena e disse:

     - Cidadezinha... Faz muito tempo que aquilo lá é uma cidade grande e tumultuada. Nem o sereno aguentou ficar por lá, bota anos nisto... O senhor está por fora...

     E completou, dizendo:

     - Não posso conversar agora... Tenho que correr para o mictório.

     Saí da rodoviária meio zonzo. Queria apenas chegar em casa, aguardar as minhas filhas, descansar um pouco e logo partir para nossa viagem de férias. Eu estou mesmo precisando.


     Autor: Paulo Renato Lettiere Corrêa (Paulo Lettiere)

A Viagem da Noiva

     A Viagem da Noiva


     Esses são acontecimentos ocorridos nos distantes meados do ano de 1968 e nunca esquecidos por mim e que voltam de uma forma mais clara para incentivar a minha memória como se fosse um apelo para que eu conte esta história a todos que queiram ler e entender.

     Tais acontecimentos, ocorreram nos campos de minha infância e poucos ficaram sabendo e menos ainda devem ser lembrar do assunto.

     Quando menino, morava na fazenda de meus pais. Ela era de porte médio, ao pé de uma imponente montanha. Tinha enormes talhões de florestas intocáveis, rios e cachoeiras de águas virgens e escandalosas, uma bela casa e bem uma meia dúzia de pequenas outras semeadas pelos recantos da propriedade (eram casas dos agregados da fazenda). Havia ainda um bom campo de pastagem para serventia de alguns cavalos e algumas vaquinhas de leite. No que restava do grande espaço era tudo formado por um imenso canavial... A atividade canavieira já era o grande negócio da região.

     Ali famílias viviam alegres. Trabalhavam muito sim, mas felizes. Entre as fazendas da região já se podia ver nascer uma vila. Era ainda bem simples... Uns poucos armazéns, uma farmacinha... No meio de uma praça simples e de formas irregulares havia uma igrejinha para as missas de domingo (com seu padre velho e totalmente surdo que na hipocrisia religiosa fingia que ouvia as confissões, para Deus fingir que perdoava as fofocas daquele povo alcoviteiro). Tinha até uma modesta e respeitada delegacia policial... Era assim: Um delegado, dois soldados e umas poucas queixas de amigos que enchiam a cara e brigavam nos botecos.

     Tinha ainda uma escolinha e também uma orgulhosa estação de trem bem ao estilo inglês e muito movimentada (afinal eram dois horários de trem, um às quatro da madrugada, quando ia, e outro às quatro da tarde, quando voltava... Affffff... era muita correria). O trem vinha de longe e parava por apenas um momento para embarque e desembarque dos passageiros ou de cargas... Eu me lembro bem, tal ferrovia cortava toda região, serpenteava em meio ao intermináveis canaviais, cruzava grandes e pequenas pontes, maculando a pureza dos lugares por onde passava, com o imenso fumo cinzento e pesado deixado pela vigorosa Maria Fumaça que sempre levava ou trazia algo ou alguém em nome do suspeito progresso.

     E assim, naquele lugar pacato, junto com aquele vilarejo bucólico, a gente vivia uma rotina que fazia parecer que o tempo ali passava mais devagar que em qualquer outro lugar. Para alguns isto era um privilégio, já para outros, angustiante. Mas de um modo ou de outro, todos se entendiam e procuravam se adaptar ao lugar, afinal de contas, tinha ele seus atrativos.

     A minha rotina era dormir cedo, acordar cedo, tomar um banho frio para espantar o sono, tomar um caneco de escaldante e delicioso café com pão de milho, me arrumar às pressas e ir afobado na minha bicicleta para a tal escola que ficava lá na vila a bons quilômetros de distância. Ia pensando... Tenho que chegar antes de fechar o portão, afinal um garotinho sem estudos não é nada. Sempre cheguei na hora certa. Depois de horas de estudo, saía da escola e passava no armazém do narigudo turco Sessim. Lá vendia-se de tudo e o pai ou a mãe sempre pedia para que eu comprasse alguma coisa.

     Eu comprava, o narigudo anotava uns números em um amassado caderno e eu a caminho para casa imaginava... "Este tal de armazém deve dar muito dinheiro... Eu quando for grande vou ter um... Talvez faça até um restaurante junto dele". Chegando em casa, descansava um pouquinho. O almoço era sempre delicioso... Minha mãe era uma cozinheira admirável e eu aprendi com ela a reconhecer os bons pratos. Depois, cuidava das lições de casa, ajudava um pouco na lida da fazenda e bem à tardinha ia com os amigos para um animado futebol no campinho ou para um delicioso banho de cachoeira (tinha uma mansinha), afinal daqui a pouco iria dormir, para amanhã começar tudo de novo (Ufaaaa.....).

     E assim cada um ia vivendo a sua rotina naquele doce lugar (afinal açúcar não faltava ali). Mas como as rotinas foram feitas para serem quebradas, não foi diferente neste lugar... Aconteceu numa madrugada fria e com uma chuvinha gelada que já molhava a região a dias, o dia era seis de agosto, a hora, três e meia, boa parte das pessoas estava se preparando para enfrentar o trabalho. Ouvia-se ainda ao longe o apito do trem batizado de Noturno, que vinha rasgando as distâncias (máquina e maquinista eram orgulhosos de nunca se atrasarem, parecia uma herança britânica).

     Logo chegou à estação a poderosa, sedenta e demonstrando todo seu vigoroso calor locomotiva animada. Bebeu muita água, recebeu em seus vagões algumas pessoas, deixou umas encomendas, e aos berros anunciou que já estava indo embora. Em meio aos canaviais, sob aquela chuvinha persistente, o Noturno caminhava à meia velocidade mas logo mudou o passo e ia agora rápido rumo à próxima parada a bons quilômetros dali (afinal não se atrasavam nunca). A tal chuvinha também aumentava, agora era um verdadeiro dilúvio que se jogava sobre as regiões em que corria nosso destemido trenzinho (nesta época do ano tais temporais eram comuns na região).

     Enfrentava agora um trecho da estrada cheio de curvas que merecia atenção redobrada, pois existia muita cerração e a chuva dava lugar à uma escuridão cinzenta que o possante farol não conseguia quebrar e alcançar muito longe. O pontual mas prudente maquinista reduziu um pouco a velocidade quando ia se aproximando de uma das curvas mais fechadas do tal trecho. A visibilidade se tornou pior ainda, a chuvarada só aumentou e aí o maquinista atento viu lá adiante, ao alcance da luz do farol, algo no meio dos trilhos. Despejou toda sonora potência do apito da invocada locomotiva... De nada adiantou, a coisa continuava lá.

     Ele pensou: - Deve ser algum cavalo ou vaca... Infelizmente não vai dar para parar em segurança.

     Para seu desespero, ao se aproximar um pouco mais ele viu que não se tratava de um animal e sim de uma jovem, uma jovem vestida de noiva, parada entre os trilhos, olhando determinada para a locomotiva que se aproximava ameaçadora contra ela. Realmente não teria como parar o trem sem causar um grave acidente. O assustado maquinista percebeu então que o trem perdeu subitamente a velocidade, parou suavemente e a vigorosa locomotiva esfriou sua caldeira. Estava a poucos metros da tal jovem.

     Meio assustado, meio revoltado, o maquinista resolveu descer da locomotiva e retirar (mesmo que à força) aquela maluca dos trilhos. Olhando melhor para ela percebeu que mesmo com toda chuva que caía, ela era linda, estava totalmente arrumada, com uma expressão de uma paz desconcertante e que nem uma gota sequer, de toda aquela chuva caiu sobre ela. Estavam, o trem, a jovem e o maquinista, parados em meio à tal curva, os passageiros misteriosamente pareciam dormir, a exemplo do trem. Ao tentar se aproximar da noiva, ele viu que ela seguia serenamente na direção em que ia o Noturno.

     O maquinista entendeu que ela queria que ele a seguisse, assim fez, foram os dois no meio de toda chuva e cerração (a visibilidade era péssima). Logo à frente, ao terminar a tal curva, ele se deparou com uma cena que o deixou aterrorizado... Uma enorme ponte sobre um dos mais largos e fundos rios da região não resistiu à força da enchente e desmoronou, restando apenas um imenso e violento mar de águas lamacentas numa correnteza de dar medo.

     Sem entender bem o que tinha acontecido, teve a plena certeza de que se aquela misteriosa jovem não tivesse parado o trem, fatalmente teriam todos mergulhado no abismo da ponte e morrido. Percebeu a jovem ao seu lado, agora com um sorriso de uma amizade indescritível. Quis expressar a sua gratidão, mas, viu que a imagem da jovem foi de forma tranquila se apagando, mesclando-se à cerração e sumindo no ar. Mesmo assim o nosso amigo maquinista agradeceu a bondade daquele ser do Bem.

     Voltou ao local onde ficou o seu trem parado. Estava ansioso para voltar o mais rápido possível à nossa estação, de onde partira. Surpreso viu que sua locomotiva, que havia apagado, agora resolvera sozinha a voltar a bufar seus vapores plenamente, como se estivesse com pressa de sair logo dali. Após comunicar aos passageiros (agora acordados) e sem dar detalhes do ocorrido, retornou à estação de partida.

     Chegando de volta à estação já encontrou uma meia centena de curiosos querendo saber o motivo do retorno do trem. Os passageiros desceram, uns conformados, outros revoltados (cretinos nervosos existem até mesmo nos menores lugares). O maquinista apressou-se em ir à sala do chefe da estação prestar esclarecimentos. Depois, de uma maneira mais informal, comentou com um grupo de moradores locais o ocorrido... Aí sim, querendo desabafar, contou com todos os detalhes o que ocorreu.

     Uns acreditaram, outros acharam que tal maquinista estava fantasiando, mas no meio de toda polêmica, um dos moradores mais antigos da região lembrou a todos de um fato ocorrido não há muito tempo.

     "Jorge e Priscila se conheceram na faculdade numa distante cidade da Europa. Os dois eram filhos de ricos fazendeiros de nossa região... Ela fazia Medicina (sonhava poder salvar vidas), ele fazia Direito (e sonhava ser um advogado justo e promover e proteger a paz e a ordem). Se apaixonaram, todos que os conheciam afirmavam ser um amor para sempre. Brincavam com eles os chamando de Romeu e Julieta Tupiniquins. Os dois se divertiam com isto.

     Pois bem, o tempo passou, eles se formaram profissionalmente e estavam noivos. De volta ao Brasil, moravam e tentavam se estabelecer em uma cidade grande. Uma dia resolveram vir até as fazendas dos pais para acertar os detalhes e confirmar a data de seu casamento. Seria no mês de novembro. Em seu carro os dois pegaram a estrada, viajaram por horas e logo estavam numa estrada de terra na qual por quilômetros andariam até chegar à fazenda dos pais dela. Já era noite e chovia muito, a estradinha virou um lamaçal, e a chuva só fazia aumentar mas seria imprudente parar a viagem ali no meio do nada, com tanta chuva a despencar. Seguiam em frente, as derrapadas, os relâmpagos, os trovões e tanta água faziam a meiga Priscila, tremendo, buscar forças encostando-se no ombro de seu amor, que com habilidade e cautela conduzia o veículo pela estrada difícil e mal iluminada. Os faróis do carro, totalmente cobertos pela lama, já não iluminavam nada, apenas os clarões dos raios mostravam os pontos mais longe na estrada.

     Porém, quando já estavam quase no final da viagem já era quase de madrugada, a chuva e a escuridão eram terríveis. Foi então que ao passarem por uma das muitas curvas do caminho, não perceberam a tempo de parar que a ponte de madeira sobre um dos rios da região havia sido levada pela correnteza. O carro de nosso apaixonado casal mergulhou nas águas cheias e revoltas matando ali dois jovens e muitos sonhos. Os carros e os corpos foram encontrados a alguns metros dali. Entristecidas, as suas famílias tempos depois venderam as propriedades e foram embora. Nunca mais se teve notícias delas."

     Todos os presentes concordaram que os fatos narrados pelo tal morador foram verdade. Alguém lembrou que seria de boa consideração levar ao conhecimento do delegado, a queda da ponte da ferrovia... Afinal, não fazia muito tempo que ele havia chegado a este lugar e assumido a delegacia. Demonstrava ser amigo, firme em suas decisões, embora não fosse de muitos sorrisos (era até um pouco triste) jamais deixava de ser educado e gentil... De vida simples mas que deixava escapar traços de fino trato, morava na Pensão da Dona Clô (que também pouco sabia sobre ele). Nem o nome dele se sabia, todos o tratavam apenas por delegado. Mas ele sabia bem como promover a Paz e proteger a Ordem.

     Foi até a delegacia um grupo de pessoas, procurando pelo delegado, que não estava. No escritório sempre muito organizado, havia apenas um cartão de visita esquecido sobre a escrivaninha. Estava muito manchado (parecia ter mergulhado em água e lama) onde mal se lia Dr. Jorge (Advogado). Foram até a pensão da Dona Clô. Ela apenas informou:

     - Bem cedinho ele veio até mim, acertou as contas e se despediu agradecido. Vi quando ele tomou pelo braço uma linda jovem que o aguardava aqui em frente. Seguiram pela alameda e sumiram em meio à cerração. Estavam muito felizes. Creio que partiram em viagem.

     Os curiosos foram se dispersando. A vidinha do lugar voltaria à sua rotina e os acontecimentos seriam esquecidos.

     Será que conseguiram esquecer...?


     Autor: Paulo Renato Lettiere Corrêa (Paulo Lettiere)

A Repartição

     A Repartição


     Os fatos aqui relatados poderiam ser apenas acontecimentos comuns, isolados, típicos da vida monótona, sem graça e fria de uma Repartição Pública. Porém se olharmos com um olhar mais aguçado, veremos o exercício de paciência e convivência do dia a dia de quem vive neste inferno burocrático, em meio a um emaranhado de Leis e Regulamentos que mudam a cada instante, contradizendo-se e atormentando quem tenta decifrá-los buscando o auxílio de seus desorientados Superiores Funcionais que quase sempre nem sabem como chegaram a ocupar tais cargos, nem o que fazem naquele Serviço.

     Como se não bastasse tudo isso, ainda tem o Público, com suas limitações, só querendo resolver os seus problemas de qualquer maneira (e que muitas vezes, desnorteados, nem estão na Repartição certa), criando Leis absurdas, imaginando Direitos que mais parecem alucinações, produto de mentes doentias tentando com suas conversas estranhas uma única coisa, sobreviver à custa dos outros. Sem dúvida existem as pessoas de Bem, simples ou mais esclarecidas, informadas e educadas, que buscam estas Repartições, são pessoas assim que merecem todo o respeito da Sociedade e principalmente das Autoridades (infelizmente estas são uma minoria).

     Pois bem, é com a Alma e o Olhar, de quem por boas três décadas, está neste cenário e fazendo parte dessa rotina, que nosso amigo “O Funcionário”, que já tantos fatos vivenciou, um dia voltando para seu lar, depois de horas e horas de trabalho, chegando em sua casa simples, seu adorável lar, lê um bilhete carinhoso deixado por suas filhas (que não resistiram àquele friozinho convidativo e adormeceram em paz), toma um demorado banho quente, prepara um delicioso café com uns pãezinhos na chapa (na manteiga e bem crocantes), coloca a sua bandeja de lanche sobre a mesa da aconchegante sala e confortavelmente instalado olha ao redor, para aquela tranquilidade e segurança, enquanto aquele frio agradável insiste em acariciar o seu corpo protegido por um delicioso roupão.

     Ele vê as cortinas balançarem levemente com a brisa que teima em entrar na casa através das vidraças semifechadas, enquanto lá fora chove pesadamente. Suspira pensativo e lentamente se delicia com seu lanche (feliz, sente-se saboreando um lanchinho digno dos melhores Chefs), espreguiça-se gostosamente e fala consigo:

     “Esta noite está até parecendo uma daquelas noites de minha infância lá no interior, quando a gente se reunia na sala para ouvir nosso avô contando suas estórias!”

     Saudoso dá mais uma olhada no ambiente, fixa seu olhar no computador sobre a mesinha no cantinho da sala e decide:

     “Hoje quem vai contar estórias sou eu!”

     Animado, liga um CD de Chopin (a meio volume), senta-se em frente ao computador e estalando os dedos ansiosamente diz sorrindo:

     “Hoje este grande escritor aqui vai arrasar!”

     Escolhe escrever sobre os fatos curiosos ocorridos em seu local de trabalho, situações surpreendentes e interessantes! Lembrou daquele dia em que...

     ***

     Foi atender uma velhinha, bem pouco humorada, com seus fortes traços de beata. Tudo corria bem no atendimento, a idosa agitada, mascando a própria língua com seus poucos dentes repetia compulsivamente que queria seus direitos. Em certo momento nosso amigo (experiente e calmo), pergunta à velhinha:

     “A Senhora tem PIS? Deixe-me ver os seus documentos. Já trabalhou fora?”

     Para horror de nosso amigo e de todos os presentes, a velhinha com um salto levanta-se da cadeira, agitando sua bengala de madeira, com os olhos esbugalhados e com seus gritos indignados, berra:

     “Seu sem vergonha, fique sabendo que eu sou uma mulher direita, nunca me deitei com ninguém, sou virgem, nunca tive filhos! Trabalho sim para meu Jesus (que está nos céus). Se eu sou de fora ou não, não é problema do senhor, seu abusado!!!”

     E colocando-se de joelhos, desata a tremer e a chorar numa reza enlouquecida que só terminou com a chegada do Corpo de Bombeiros (segundo ela gritava eram os anjos, bonitões, do Apocalipse).

     Ufa...

     ***

     Em uma outra ocasião, ocorreu um fato muito estranho à compreensão humana. No meio de uma tarde, todos estavam bem tranquilos, ocupados em suas tarefas, o público aguardava o atendimento ordenadamente, sem problema algum. Contrariando toda essa paz havia somente a agitação neurótica de uma das Supervisoras de Serviço (uma daquelas que nada sabem e se sentem sabichonas). Meio loira, meio ruiva, coroa com mania de modelo e com seus devaneios de ter morado na Alemanha (nunca saiu da cidade onde nasceu e mora, quanto mais do Brasil).

     Pois bem, a criatura, alta, um tanto fora de forma, com uma mania horripilante de ficar retorcendo os lábios (enrugados e tingidos de rubro fatal), nervosamente não parava, ia de uma mesa a outra, infernizando a todos com sua incompetência administrativa. Subitamente ao passar próxima à mesa que ocupava, esta esbaforida, com suas sandálias de saltos exagerados, torce o pé, vai ao chão ruidosamente numa queda preocupante e fica estirada como que sem sentidos. Num impulso levanta-se nosso amigo funcionário e oferece ajuda à colega caída, estende a mão, mas, para surpresa de todos (e decepção dele, que por princípios sempre foi orientado a ajudar a quem necessitar) ela olha para ele com olhos enraivecidos e aos berros rejeita seu apoio dizendo:

     “Não se aproxime, não me toque e não me olhe, saia de perto de mim! As tropas de Hitler me salvarão! Suma daqui!!!”

     Os outros colegas custaram convencê-la a aceitar ajuda deles.

     Questionada depois pela Chefia, sobre o tombo e sua atitude, ela retorcendo os lábios e com os olhos frenéticos, falou:

     “Que tombo? Eu?!”

     ***

     Nesta Repartição em que trabalha nosso amigo, existe um esforço muito ativo por parte de todos para se preservar uma prestação de serviços de Excelência, pois bem, na tentativa de mostrar este empenho aos usuários dos serviços, muita coisa se faz. Então resolveu a Repartição, colocar em pontos estratégicos das Agências (nos salões de atendimento) uns cartazes retratando em tamanho natural um funcionário com um largo sorriso nos lábios exibindo uma lista de serviços oferecidos ao Público... ficou o tal cartaz muito bem feito (muito real). Certo dia estavam todos ocupados com suas tarefas, quando de repente em um canto do salão (onde o Público aguarda o atendimento) começou uma gritaria.

     Um cidadão, baixinho, de cabelos ruivos, com enormes dentes projetados para fora da boca e usando uns óculos de lentes redondas e enormes (absurdamente grossas) aos berros demonstrava toda sua fúria e indignação, gesticulava e gritava contra o País, contra o governo, contra a sociedade, enfim contra todos. Estava revoltado principalmente com aqueles que permitiam que funcionários como “aquele ali” em frente a ele trabalhassem no serviço público.

     Berrava o apoplético cidadão que aquele funcionário não lhe dava a menor atenção, nem olhava direito para ele, ficava apenas com aquele olhar superior e aquele sorriso irônico, um sujeito debochado e inútil a ganhar alto salário, pago pelo dinheiro público.

     Todos ali estavam assustados e sem entender direito o que estava acontecendo, então uma Assistente Social se aproximou do irado cidadão e com muita habilidade convenceu o tal sujeito a ir para sua sala, dizendo:

     “Pode deixar, eu vou atender o Senhor...”

     Retirando-o enfim da frente do tal cartaz que insistia em ficar sorrindo solicitamente com sua lista de serviços na mão. Coitado, dias depois o tal cartaz foi exonerado a Bem do Serviço Público (nem teve chance de se defender das acusações daquele louco que não enxerga um palmo diante do próprio nariz)!

     ***

     ...Nosso amigo já estava imaginando contar umas estórias também sobre Júlia (uma funcionária “caipiranha” recém chegada ao setor público) que gostava de se dizer a mais bela, mais competente e mais tudo. Mas que era conhecida por viver numa eterna “pindura” financeira e por sua mania de festas, por qualquer motivo lá vinha ela fazendo vaquinha para promover festas no serviço (diziam até que era para ela e sua filha Mary, de quatro aninhos e sem pai, terem o que comer).

     Neste momento porém o nosso amigo escritor ouviu de súbito um urro medonho, era o aviso do antivírus de sua máquina alertando que uma ameaça grave estava tentando invadir seu computador. Salvou seus arquivos com segurança, adotou medidas preventivas de proteção ao sistema e pensou:

     “Já escrevi muito e muito bem!” (era convencido, o danado)

     “Está na hora de ir dormir em minha cama quentinha!”

     Assim, já estava se deitando quando outro som sacudiu sua casa. Deu um salto e logo descobriu que se tratava do seu rádio despertador que o acordava todas as manhãs, de segunda à sexta-feira, tocando um Rock pauleira absurdamente alto, avisando que era hora de ir para o batente.

     Pronto! Revoltado, começou a correria, tomou um banho rápido, fez a barba às pressas, tomou um gole do café da noite, pegou sua pasta de serviço, abriu delicadamente a porta do quarto de suas filhas (tesouros de sua vida) e carinhosamente deu um leve beijo de despedida nas faces delas. Ia saindo do quarto de fininho, quando as filhas com seus olhos sonolentos perguntaram:

     “Pai vai aonde?”

     Ele responde:

     “Ao trabalho, já estou atrasado.”

     As duas filhas então espantadas falam em coro:

     “Mas Pai, hoje é sábado!”

     Então nosso amigo, surpreso, mas feliz e aliviado, agradece a suas filhas e novamente no conforto de seu pijama preferido (branco com bolinhas azuis) joga-se de volta à cama sob um cobertor acolhedor.

     Assim, logo está nosso amigo em sono profundo, embalado apenas pelo som da chuva fria que insiste em cair lá fora e do radinho de cabeceira (em volume bem baixo) em que um animado locutor diz:

     "Alô meus amigos ouvintes!!! No meio desta manhã chuvosa e fria de sexta feira...”


     Autor: Paulo Renato Lettiere Corrêa (Paulo Lettiere)

A Receita de um Conto

     A Receita de um Conto


     Andando pelo interior do nosso país, cheguei a uma pacata e simpática cidadezinha de povo gentil e acolhedor, além de ser uma das mais faladas e conhecidas pela qualidade de sua cachaça e culinária (o que despertou em minha alma de Chef grande interesse em conhecê-la).

     Pois bem, cheguei em uma dessas vendinhas admiráveis do interior, que são armazém, açougue, padaria, armarinho, restaurante e até farmácia (tudo isso em um só estabelecimento), esta, do amigo Gafanhoto era muito bem cuidada. Sentei junto a uma mesinha de madeira com duas cadeiras, pedi o prato do dia, costela de boi com agrião e enquanto aguardava, aproximou-se um morador do local, era um caboclo amistoso, aparentava seus sessenta e poucos anos, trazia com ele uma garrafa de boa cachaça e dois copinhos convidativos. Com uma voz rouca e serena cumprimentou-me, pediu licença e sentou-se à minha frente, ocupando a outra cadeira de minha mesa. Olhou-me sorrindo e serviu nos dois copinhos a purinha e com um ar enigmático e desafiador, deslizou um deles em minha direção, entendi o gesto e brindamos a nova amizade tragando de um só gole todo o conteúdo (era adoravelmente gostosa e terrivelmente forte, aguentei firme), ele então, tornou a encher os copinhos e percebendo meu desespero, gentilmente disse:

     - Carma irmão, estas é pra depoi!

     Com seu palavreado regional e matreiro, virou para o garoto que servia as mesas e falou:

     -Custela cum agrão, pra eu também, pur favô.

     Voltou-se para mim e comentou:

     - O Doutô é di fora, mas vi qui é genti boa i sabi o qui é bão, gosta di comê bem i gosta di um “tapa na guela”!

     Algum tempo depois fui saber que ele havia me servido naquele copinho a cachaça mais forte da região, era uma das formas de dar boas vindas às pessoas de fora.

     Agradeci, disse a ele não ser Doutor, apenas um interessado pela cozinha de um modo geral, nossos pedidos chegaram fumegantes, com um colorido e aroma tentador, ali, com aquele caboclo aprendi a enfrentar aquela comida deliciosa. Ensinou ele:

     - Pra cada cinco grafada di cumida, um copinho di cachaça das boa, o úrtimo copinho é sempri oferecido ao Santo.

     E assim fizemos, comendo, bebendo e proseando, sem dúvida um dos melhores almoços da minha vida.

     Afinal saciados em nossa fome e mais amigos do que nunca, comentei que algum dia iria fazer uma costela tão boa como aquela e que também iria aprender fazer uma boa costela no bafo. Ele, animado, deu um vigoroso arroto, pediu-me desculpas e disse:

     -Presti bem atenção, eu vô contá procê a mais deliciosa manêra di fazê uma custela no bafo. Foi num dumingão, fiz pra moçada lá da granja i todo mundo adorô, fui no açogue do Melé, aqui pertim, cumprei umas custela, cum bastanti carni i bem gorda, cumprei um baldim di áio batido i tamém uma forma di alumino bem grandona, aquela do tipo descartávi, roio di papé alumino i firmi prástico (daqueli qui si usa pra pô em vorta da carni no brasêro) i corrí di vorta pra granja.

     E continuou:

     - Eu fiz anssim: Lavei as custela, sequei direitim, passei bastanti sar grosso, tirei o sar demais i passei bastanti cremi di áio nelas, butei uma pimenta vermeia inteira, duas cebola cortada ao meio i uns dois copos americano di vinho tinto seco (meió si véio, quasi venagrano). Embruiei tudo cum umas quatro vorta do papé alumino, depoi enroiei cum três vorta di firmi prástico, pra ficá bem vedadim i pur fim, mais uma ou duas camada di papé alumino, butei o tar embruio im cima dumas pedra di rua qui já estava pegano fogo no brasêro i dexei o marvado lá por quarsi cinco hora. Depoi metí a faca neli para vê si já tava macio i sortano dos osso (cuidado pra não si queimá com o calô qui sai).

     - Óia moço, ficô di lambê os beiço.

     - Pra falá a verdade moço, eu ia inté fazê pra hoji, mas acunteceu entrevêro lá im casa num sabe... eu ontem à tardezinha saí pra cumprá as custela na venda aqui pertim, fiquei proseano cuns amigo, bebeno sociarmente cos colegas, num sabi... quasi mi esqueço da custela, queria cumprá uns quatro quilo, dei um vacilo i saí di lá cum dezoito quilo di custelas.

     - Pra ataiá o causo, seu moço, lá pra duas da madruga cheguei im casa, bêbado, sem um tustão, chêrano a perfumi barato i cum enormi embruio di custelas, i pregunto para minha Dona (que não sei pruquê estava à minha espera muito nervosa): “Será que ocê faz custela no bafo, pra seu amorzinho i os amigo deli qui vem aqui im casa hoji tomá umas branquinha?”

     - Amigo, vô dizê uma coisa, muié da genta, quano não quer ir pra cozinha, é o bicho, óia, ela mi xingô, mi bateu i mi botô pra fora di casa esta noite, não entendi pruquê.

     Eu, amigo que havia me tornado, em tom consolador, assim falei:

     - Mas meu amigo, você apronta todas e ainda não quer que sua mulher fique brava, tome rumo amigo!

     Ele então falou com o olhos cheios de água:

     - Moço, eu amo a minha Dona, nunca faria nada pra magoá ela, o que acunteceu foi o serguinti:

     - Eu só fiquei sem dinhêro pruquê cumprei custela demais. A bebedêra, isto foi pru conta dum custumi nosso dos finá de semana, di í cos amigo tomá umas branquinha despoi di tantos dia di trabaio duro na lavôra. Os amigo iam armoçá lá im casa sim, tomano umas purinha, pruquê eles si oferecêro pra dá uma força no nosso roçado. I o tar chêro de perfumi barato qui causô tanta faladera, foi pru conta di um vidrinho di Arfazema (daqueli qui tem um ramim da tar flô drento) qui eu tinha cumprado pra fazê surpresa pra minha Dona i qui acabô quebrano im uma das minhas muitas quedas à caminho di casa, molhano a minha rôpa com seu conteúdo.

     Aliviado com as explicações e vendo que a alguns minutos uma Dona (era a dele) nos observava timidamente como se quisesse aproximar-se do meu amigo e puxar conversa, pedi a conta do almoço, paguei e despedi-me dele, jurando voltar mais vezes e fui saindo de fininho dizendo a ele (que nem havia se dado conta ainda da presença tão próxima de sua Dona):

     - Fica assim não, note que ela também não poderia adivinhar tudo isto (e na hora da bronca as coisas ficam mais complicadas). Tenha certeza amigo, logo logo ela vem se acertar com você, pois ela também te ama. Mal havia me afastado uns metros, olhei para aquela mesa e vi os dois, sorrindo um para o outro. Aquele belo casal, de mãos juntas sobre a mesa, e unindo os dois, o amor, uma garrafa de purinha e dois copinhos ansiosos.

     Óia, digo, olha, foi a mais gratificante amizade e a melhor receita de Costela no Bafo que já experimentei até hoje. Eu fiz do jeitim, digo, jeitinho que ele me ensinou, ficou maravilhosa!


     Autor: Paulo Renato Lettiere Corrêa (Paulo Lettiere)

A Luz da Serra (Uma Estória de Amor)

     A Luz da Serra (Uma Estória de Amor)


     Renato, garotinho feliz e participativo, conhecido entre seus colegas como “Natinho”, nascido e criado numa fazendinha de seus pais, localizada no interior de um estado de bela natureza, em uma cidade pacata, ele, sonhador mas responsável, dividia seu tempo entre estudos e ajudar na lida com a terra, mas também não dispensava os lazeres locais e próprios da idade (adorava fazer trilhas através da cadeia de montanhas que circundava a cidade).

     Assim, juntamente com seus amigos, conhecia outras pessoas, lugares e aquela natureza de raro esplendor. Foi aí, neste nascedouro da paz que Natinho viveu e passou a respeitar mais ainda o amor.

     Montanha acima, mata adentro, foi o grupo de jovens, até encontrar uma família que morava a anos e anos naquele lugar, em uma casinha humilde e simpática, junto à uma cachoeira que se esforça para fazer suas águas roncarem, foram eles bem acolhidos por aquela família (composta de um casal e seus dois filhos), curiosa para saber notícias da cidade grande (já que vivia ali e quase nunca tinha necessidade de ir à cidade).

     Acomodaram-se ao redor de uma fogueira que crepitava alegre no quintal da casa e convidaram os visitantes a fazer o mesmo, já que a noite já vinha colorindo a mata de um verde mais escuro e a lua cheia (linda) vinha enchendo o céu com sua luz prateada trazendo junto uma brisa suave e fresca que acariciava os corpos e espíritos, tendo ao fundo a música dos pássaros cantores da floresta em um coral inesquecível.

     E foi ali, trocando idéias, experiências, discutindo mentiras e verdades, que ouviram a mais bela estória de amor daquelas matas. Contou o patriarca daquela unida família em um tom que inspira a verdade:

     “A muito, muito tempo atrás, em uma noite medonhamente escura, a vida de um valente, amado e jovem índio de uma tribo da região teve um trágico fim, pois ao partir para a caça noturna (costume indígena) para conseguir alimento para sua aldeia, em meio à escuridão caiu num grande buraco e morreu. A crença indígena dizia que os bons espíritos dos índios caçadores iam morar na Lua.

     A jovem índia, doce e radiante namorada, ao saber da morte do amado, não lamentou, não chorou, simplesmente morreu. Revelaram os índios da tribo que momentos antes de morrer, a índiazinha balbuciou:

     -A partir de hoje, ninguém mais vai se perder nesta montanha! Contam todas as gerações desde então, que as noites daquela região nunca mais foram escuras, as matas passaram a ser sempre agraciadas pela luz azulada da Lua, e por entre as árvores flutua uma bola de luz, que parece um pedacinho de lua, mostrando o caminho certo aos que precisam de ajuda.”

     Passou rapidamente a noite, pois depois de tantos casos, estórias, contos e lendas compartilhados, adormeceram tarde e acordaram tarde, almoçaram e a conversa continuou durante grande parte do novo dia e então já sentindo saudades daquela família, os jovens partiram mas foram apanhados no meio do caminho de volta à cidade, em plena mata, pelo véu da noite, ficaram preocupados, poderiam se perder, escurecia, mas para surpresa do grupo a lua surgiu soberana, iluminando o caminho. E assim chegaram em segurança à porta da cidade, olharam para trás e viram admirados à poucos metros deles uma esfera de luz, que parada, flutuava, como se estivesse querendo certificar-se de que o grupo havia chegado bem ao seu destino.

     Lembrando-se da estória contada, em silêncio elevaram seus pensamentos agradecendo a ajuda e companhia dos espíritos de luz enquanto a luzinha voltava calmamente para o interior da floresta. Chegaram em casa envoltos pela paz, contaram os acontecimentos às suas famílias, que ouviram respeitosamente, pois todos acreditavam em seus jovens filhos.

     Desde então, fatos idênticos de ajudas nas matas locais são relatados por pessoas idôneas. Até hoje (e torcemos que por todo sempre) podemos observar que naquela pacata cidade o luar é diferente, é lindo e puro o céu, e pelas montanhas, mesmo olhando da cidade podemos ver, lá sobre a mata, a luzinha, vagando tranqüila, enamorada do luar (e ajudando a outros necessitados) preenchendo a atmosfera daquela paisagem com muita paz.


     Autor: Paulo Renato Lettiere Corrêa (Paulo Lettiere)